Gandhi
um líder inusitado
Nunca aceitou cargos de governo. Não exaltava as com discursos demagógicos; ao contrário, cobrava de seu povo a irracionalidade na perpetuação do sistema de castas, a discriminação das mulheres e a falta de higiene. A despeito de suas crenças religiosas, não foi um profeta e nem permitiu que assim o tratassem, rejeitando o título de Mahatma que lhe conferiram. Todavia, foi o líder de milhões de indianos que, na metade do século XX, conquistaram a independência nacional sem recorrer às armas, à coerção ou sabotagens violentas.
Falamos de Gandhi, sem dúvida, o pacifista mais notável da modernidade. Sua trajetória (1869-1948) poder ser compreendida em quatro períodos: 1) a infância e a adolescência em Porbandar, litoral pouco expressivo no noroeste da Índia; 2) os quatro anos de estudo na Inglaterra, onde se formou advogado e tomou contato com o pensamento de Tolstói, Emerson, Thoreau, os socialistas utópicos e o Sermão da Montanha, influências decisivas para sua futura ação libertária; 3) o início das lutas contra o racismo na África do Sul; o retorno à sua terra natal, onde liderou a independência de três séculos sob domínio do Império Britânico.
Para Gandhi, o cerne do planejamento estratégico em busca de justiça social funda-se em dois eixos, que se alimentam e consolidam de maneira sistêmica. Por um lado o compromisso com meios e fins não-violentos, que permitem reconciliar oprimidos e opressores elevando a dignidade de ambos ao promover ações conjuntas. E, por outro, compromisso com a verdade, isto é, engajamento em um padrão único de comportamento ético, capaz de despertar a confiança mútua, o diálogo e a possibilidade de convívio edificante e promissor.
Estes princípios são o fermento de quase todos os movimentos pacifistas contemporâneos, cujas ações transformara a relação de poder ao questionar a legalidade e legitimidade de procedimentos injustos. Encontramos exemplos bem sucedidos destas ações no comitê para o Desarmamento Nuclear, liderado por Bertrand Russell; nas conquistas dos direitos civis nos negros dos Estados Unidos, articuladas pelo Dr. Martin Luther King; o fim do apartheid na África do Sul, com Nelson Mandela e Desmond Tutu na linha de frente; as lutas pela consolidação da democracia no Leste Europeu, cujos governos totalitários ruíram não por causa de um confronto militar, mas pelo poder popular desarmado.
Hoje, a Campanha Nacional pelo Desarmamento convida a todos os setores da sociedade para reafirmar, mais uma vez, sua vocação pacífica e promotora de novas formas de solidariedade.
Evitando extremos de passividade e violência, o programa de ação política desencadeado por Gandhi é o exercício da máxima que ele mesmo repetia uma e outra vez:
"Tudo o quanto existe é o teu próximo.
Lia Diskin - É co-fundadora da Associação Palas Athena. www.palasathena.org