Uma Questão de Ética
Muito tem se falado sobre ética e valores humanos em todas as mídias, em época de eleição é até chato pois palavras como justiça, transparência e ética são exaustivamente utilizadas para descrever os futuros governos dos então candidatos aos cargos públicos. Porém, são rapidamente esquecidas e levadas pelo vento do poder e da falta de interesse dos eleitores em verificar se os candidatos eleitos realmente cumpriram suas promessas.
Mas vamos deixar de lado as promessas dos "outros", acredito que como pais e educadores também assumimos um compromisso com nossa família e comunidade, prometemos a nós mesmos que não iremos repetir os erros da educação que recebemos tanto de nossos pais quanto de nossas escolas, geralmente achamos que nossos pais e professores eram cheios de defeitos e falhas no que concernia a nossa educação. Mas será que estamos realmente comprometidos em melhorar as novas gerações através de um cuidado maior, de uma consciência mais esclarecida e um pensamento que contribui para a manutenção da vida no planeta e da comunidade humana?
Ao nosso redor vemos o aumento da violência em todos os cantos do mundo, o consumismo exacerbado, a falta de valores como o respeito, a generosidade e a solidariedade, nos sentimos perdidos e angustiados com o estado das coisas.
Ainda há muita confusão entre as palavras ética e moral, a última refere-se a comportamentos culturalmente aceitos por determinadas comunidades e considerados "bons", por exemplo; em algumas tradições é moralmente aceito que um homem tenha mais de uma esposa. Não cabe a nós julgarmos se é certo ou errado, é um costume e uma prática comum dentro de determinadas culturas.
A ética, diferentemente da moral é uma disposição interna, está intimamente relacionada com o sentimento e o compromisso com a nossa consciência. Nem sempre está de acordo com a moral vigente ou até mesmo com as leis, a ética é essencialmente transgressora. Um exemplo de atitude ética foi dada por um funcionário da prefeitura de São Paulo alguns anos atrás quando se recusou a demolir a casa de um morador que havia sido construída em um local considerado ilegal, naquele momento o tratorista se colocou no lugar daquela família que não tinha para onde ir e se recusou em ser o agente que destruiria o lar daquelas pessoas.
É preciso ser corajoso para ser ético e enfrentar as conseqüências de nossas atitudes. Normalmente desejamos ser "éticos" desde que isto não nos prejudique, não queremos assumir a responsabilidade de nossas ações, sempre esperamos que "alguém" faça alguma coisa para melhorar a "nossa" vida, esperamos, esperamos e esperamos...e enquanto isto nossos filhos vão crescendo, a vida vai passando e as vídeo-cassetadas do Faustão de repente não são mais tão engraçadas...
Mas o que fazer, se de tanto esperar nos tornamos mórbidos, amargos e impotentes?
Como diz um provérbio chinês; "Se queres mudar mundo, primeiro de três voltas ao redor de sua própria casa." As mudanças mais importantes devem começar dentro de casa, que tal começar ouvindo seus filhos e companheiros? Eu disse "ouvir" não "falar", normalmente achamos que estamos "dialogando" quando na verdade só estamos falando e quando chega a nossa vez de ouvir mal toleramos o ponto de vista do outro e a conversa termina bem antes de ter começado...
Será que estamos preparados para perguntar as pessoas que convivem conosco o que acham de nós, e se perguntássemos aos nossos filhos se estamos sendo bons pais, ou o que está faltando para que a nossa relação seja melhor?
Na maioria das vezes os filhos e os companheiros sentem que a falta de atenção está relacionada com a falta de tempo, com o stress e as dificuldades do dia-a-dia. Mas como conseguimos tempo para acompanhar as novelas e telejornais e não temos tempo para acompanhar o que acontece na vida das pessoas mais próximas de nós? Sabemos mais da vida de celebridades do que de nossos amigos. Sabe aquele amigo que você não fala faz tempo? Que tal uma visita, ou pelo menos um telefonema.
Aristóteles dizia que "onde há amizade não há necessidade de leis", em uma comunidade onde as pessoas cuidam umas das outras não é necessário um sistema de leis para dizer o que é justo, a convivência é única possibilidade de criamos uma sociedade mais pacífica e unida.
Se ficarmos aguardando a transformação certamente ela não virá, "quem sabe faz a hora, não espera acontecer", está na hora de cumprirmos o que nos prometemos quando decidimos ser pais e educadores, assim teremos autoridade moral para cobrarmos as promessas dos "outros".
Há um episódio da vida de Mahatma Gandhi que ilustra como podemos cobrar uma transformação na atitude de outros;
Certo dia uma mãe foi visitar Gandhi junto de seu filho, e pediu a ele que o persuadisse a parar de comer açúcar.
Gandhi então pediu que ela o trouxesse na semana seguinte. A mãe meio transtornada ainda insistiu que falasse com ele naquele dia pois eles vinham de longe e o menino estava junto dela. Porém ele disse que só falaria na outra semana.
A mãe então retornou novamente após uma semana e quando junto de Gandhi ele disse ao menino "pare de comer açúcar", meio sem graça a mãe replicou ao Mahatma, mas você se você só ia dizer isso por que não disse na semana passada? Calmamente Ghandi respondeu; "é que na semana passada eu ainda estava comendo açúcar".
A ética não é feita de belos discursos, e sim de belas ações.
Regina Proença - Tradutora, professora, graduada
em Filosofia, integra o programa de “Multiplicadores em Ética” da Associação Palas
Athena - SP. Coordena as atividades do Iluminattis.
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